12 de julho de 2010

 

Não sou homem e não sou mulher. Exatamente por isso, em determinadas épocas não falo nem como. Mordo, animalesco e agressivo. Perto do dia em que nasci, eu danço, toco tambores, reverencio minha mãe grande útero com voz de sereia no corpo que não defino. Não sou um contador de histórias, um narrador, um poeta. Nomeio-me um sem nome substantivo próprio masculino. Porque, quando se vive percebendo os detalhes, deixa-se de agregar e começa-se a fluir. Flui-se com os horários, com os encontros, com as contas, com a predominância do gênero. De resto, nada gruda: deixamos que passe, como esperamos que passe a tosse crônica de noites agoniantes. Nomeio-me masculino porque já não desejo mudar os estigmas. Vivi até agora iludido, ilusionista ferrenho, no lapidar do grande muro-linguagem de tijolos-palavras. O que são as cores? Deslizam moribundas por sob minhas retinas: as capto, mas não são matéria e parecem descoladas das superfícies. Vejo cores como filtros que escondem a verdadeira monocromática das peles que vestem os seres. Disseram-me sobre a dissolução de coisas indissolúveis ao meu entender: o café e o doce, a pele e a pele, o entardecer e a fome. Troco histórias, personagens, vontades. Para alguns, sorrir é encontrar o caminho. Perco o foco quando sorrio, mesmo com os olhos negros luzes. Aliás, pergunto-me: como escrever em segundos em retinas o endereço para onde devem ir os sorrisos? Os sorrisos têm é vida própria, como os olhares.

21 de junho de 2010

o grande Arthur

    Seria: o grande senhor Arthur, completando mais uma década de vitórias e bons salários mas não: o puto do covarde, olhos desconfiados, curvatura proposital para observar as donzelas todas moças de saias de pregas e cabeças de cabelos soltos. Além de relembrar reclamando e clamando as amantes de outros tempos Ah, Erika, Carolina, Dulce, Mariana, Luciana, Danielle e tantas mais, A alma em podridão na carne talhada que, antes de despedir-se da amada, no leito onde a mulher pintou o sorriso do gato no céu, branco como dentes de negros escravos, esse mesmo Arthur, que poderia ser e não é, esse corpo de músculos tendidos e tensos diz: Foda-se! Diz foda-se à amada, foda-se e nem lembra-se pelo quê. Grosseiro, grotesco, machista. Desde quando, Arthur, andas tão arredio?
Não me faça perguntas difíceis,

30 de maio de 2010

Miragens

Miragem. Quando anoitece, eu canto.
Tem vezes que falo demais, sabe, Jorge? Tem vezes que falo de menos. Tem vezes que nem mesmo falo, fico cá quietinha com meus turbilhões de grilos inside me. Nem me movo. Miragens, Jorge. Quando anoitece, eu canto. Ela tosse, ele desvia. E desviar era como se concordasse e adivinhasse previamente, visto que os textos se repetiam sem a menor cerimônia. Quando anoitece, eu encanto. Não penso em nada, ou talvez em algum Paraíso perdido, que nunca acho nem mesmo quando imagino. Procuro por estrelas, Jorge, enquanto capto as nuances dos que sorriem com os olhos. Imagine só, sorrir apenas com os olhos, as duas bolotas pulando num centro ondulante que circunda, Jorge. Só as duas bolotas denunciam, Nada mais, Nada menos. Feição alguma se modifica, inclusive os dedos as pontinhas que por vezes fazem roídos ensurdecedores, nem mesmo os dedos se movem, ficam quase que mortificados. No entanto, a pessoa sorri. Entendo o porque sorriem, Jorge, vejo o encanto nos olhos dos encantados, ainda que o mundo e todos sejam um desencanto só, um grande desamparado filho de uma filha da puta que renegou sua prole e a expulsou de casa - o seu único filho na rua! -, todos A angústia em meio a. A tantas outras coisas, Jorge, tantas outras dores que não adianta discutirmos mais. Além de tudo, estamos quase sem voz. Temporariamente impedidos. Impelidos por uma sombra qualquer dentro de nós - ou seria luz? claridade? impulsovital algo-no-fim-do-túnel? Impelidos por isso que não nomeamos para isso que insistem em chamar de vida, essa crueldade insana. Do que falo? Ora, Jorge, falo do humano. Não sou mais a calma bonitona do 15, penso que é uma maravilha chegar a uma certa idade e poder fluturar por entre as personalidades que existem no âmago de nossa sinceridade (coisas que nós sabemos e mantemos a sete chaves, um esconderijo quase aquoso que destruiria o Todo). Estamos perdidos e esse é o destino e a salvação. Já sabemos disso. Sim, a natureza. Sim, a rebeldia do fogo e das águas. Sim, as chuvas enlouquecedoras. Sim, os desmoronamentos, o derretimento de geleiras, o mundo transbordando-se e não cabendo mais. De qualquer forma, aqui dentro Acumulam-se dias, Jorge, dias tensos em pilhas, e lhe pergunto: para quê? Para quê tantos dias empilhados como blocos de contratos em cima da mesa do escritório. conta-se mais de três mil?, porque já perdi as contas (...)

21 de maio de 2010

Uma roda axial é o que é a vida
presa a um eixo imaginário
nunca as mesmas voltas
nunca os mesmos círculos
no entanto, roda, a coitada
como se fosse chegar
como se existisse lugar
como se essas palavras caóticas como redenção salvação cura (amor) pudessem fazer sentido
senão perde o eixo e destrambelha tudo
por isso roda, a danada
sabendo-se motora de sua própria existência
não se sabe se sabe ao certo o que é viver assim
e de vivência tem crostas na pele
marcas e manchas nas ancas, arredondadas
então desiste de entender:
sangrar é bom, mas fatal
Então Continua rodando, a roda,
no eixo da humanidade desigual

27 de abril de 2010


Que me dizes, ein? Topas? Junta teus trapos com o meu? Posso agora nomear-te minha senhora? é que me dói em dois minutos o coração após tua partida. Hein? Combinados, então?
E ele todo cauteloso, preocupado. Ela distraída, talvez um pouco cansada. Mas não escondia nos olhos dissimulados que estava feliz. Ele meio nervoso ainda, talvez a temperatura um pouco alta, quase febre; podia sentir o pescoço ferver e as mãos quase em fogo, talvez fosse um suor quente que o corpo fabricava para afastar o frio.
Roberto era o nome dele, que sou eu, e Bela era como eu a chamava, embora atendesse por Maria do Carmo, seu nome de batismo.
Minha bela, assim combinamos que seria. Não é que eu não gostasse de Marias, mas ela merecia um nome como Bela.
E o convite foi feito porque ela me afastava dos maus pensamentos. Os abraços e o nariz afundado no cangote. Os ombros como areia onde enterrávamos os focinhos e ficávamos por horas, as patinhas passando pelas costas alheias, que eram quase um corpo só, nós dois ali nos abraçando, minha respiração meio ofegante porque eram tantos pensamentos bons que eu só fazia correr para alcançá-los. Um cachorrinho que eu era, com a língua pra fora pedindo carinho. Mas eu não tinha vergonha porque ela também tinha lá umas loucuras desse tipo. E quando tirava a roupa e ficava toda coberta pelos lençóis caríssimos que eu comprava pensando exatamente nisso, no leve tecido na pele macia da Bela, e ficava encolhidinha escondendo aquelas formas todas de mulher. Eu queria só isso, que ela me abraçasse e ficasse ali comigo deitada na minha cama. Pelada e encolhidinha para sempre, a minha fêmea. E quando isso acontecia, vinham os abraços porque eu sempre tive braços para esquentá-la, sempre pesei o corpo sobre o dela para que entendesse que eu a protegia e que nada de mal lhe poderia acontecer. Topas, Bela?
Ela feliz, mas livre. Juntar os trapos... mas minhas coisas nem são trapos. E nem as suas, meu bem, não fale assim, ela dizia. Desconversava, e eu insistindo e os nossos olhos chorosos porque é assim que se descobre, em conversas bobas e perguntas bobas, é assim que se descobre que é bom como está, que ainda o coração vai doer a cada vez que ela for embora. Talvez nessas viagens ela nunca mais volte e eu passe a comprar lençóis baratos.
Choramos. Nunca mais falamos disso até hoje.
Ela ainda vem, disperdiça seu tempo na minha cama nova, prepara o café e fica, cara, fica pelada encolhidinha, agora deixando os seios à mostra. Não sei se é porque a intimidade nos despe dos pudores ou porque quer que eu saiba que está aberta para mim, como se os seios fossem o coração, sabe como? Como se deixasse transparecer que eu posso aquece-la sempre que fizer frio.
Topas, Bela? dividir comigo tua solidão?
-Não.
E Roberto nunca mais levou ninguém em casa. Roberto não sai de casa. Roberto nem tem mais casa porque não pode se chamar de casa aquilo onde ele vive. Casa, Bela? Faz do Roberto também um homem livre.

14 de abril de 2010

"Os dedos se moviam como se roçassem e coçassem uns aos outros, autônomos e auto-suficientes num movimento que, quando em ápice, deixava no ar o desespera de que nunca se findariam. As pernas se cruzavam quase ininterruptamente e os pés agitados balançavam-se em círculos também infindos; bebericava ansiosa para que a cafeína fizesse efeito e acordasse e começasse a pensar não mais com imagens turvas e sim, repetia agora para si mesma - em voz baixa para que os passantes não desconfiassem -, claramente. Tinha de pensar claramente antes que tudo virasse sombra e contornos embaçados."

30 de março de 2010



A menina entra em casa. Havia saído às 8h, às pressas, e agora deviam ser quase nove horas da noite. A casa vazia, mas nada em seu lugar.
Enquanto isso, a mulher já está sentada em um sofá branco de sua antiga e eterna residência, rodeada de parentes e amigos, mas um tanto quanto só, e sabia isso por conta dos arrepios que tinha de vez em quando: assim: sentada no sofá branco, rodeada de parentes e amigos, às vezes escapolia o olhar para a janela. Se sentia atraída pelo céu, por astrologia e pelos anjos. Não posso dizer com certeza, mas acredito que a mulher acreditava em anjos tanto quanto a menina. Levantava do sofá e, como era frio e não se agasalhava muito bem, vinha um leve arrepio, os pêlos dos braços ouriçados e também os do pescoço e os da perna. Fechava as janelas e voltava à mesa central, onde abraçava sua mãe e se sentia protegida. Apesar de tudo (apesar de todo o cansaço, das dores em todo o corpo e do braço paralisado devido a uma torção nos últimos ensaios), conseguia aconchego em colo materno. Mas mesmo depois de aquecida, mesmo com a lareira, mesmo com as janelas fechadas, outros e outros arrepios durante toda a noite. Era aí que verificava: estou um tanto quanto só por dentro.
Com a menina a mesma coisa. A casa em si mostrava a solidão, e aquela solidão em que não se teve tempo para deixar tudo em ordem, à espera de. Nada esperava ninguém na casa da menina. Pelo contrário, parecia querer mandar todas as coisas embora, inclusive a própria menina junto às malas dos recém chegados e enviá-los a rua próxima para que fossem felizes. A casa sentia isso, que o melhor que uma menina que não queria estar ali poderia fazer, era, de fato, ficar longe. Não é que ela não quisesse, mas isso a casa não sabia, simplesmente sentia bem o peso da ausência e da distância nos ombros da menina.
Mas perdurava, ela. De nada adiantava ir, se o principal estava longe. De que adiantam os móveis, a cortina, o ambiente? A menina gostava era do recheio, que sempre fora o principal, e então o arrepio: talvez por saber que essa noite ela não poderá acender um cigarro, descer as escadas e fazer uma mini serenata na rua ao lado. Porque frio não estava no Rio de Janeiro, muito menos na Lapa, então como se explicam os arrepios?
É que a menina também se sentia só.

Faz parte do seu show? Porque se for tudo um grande drama, mesmo sofrendo, eu aceito. e sinto junto como se estivesse no palco contigo. Tenho medo apenas que vire mania, exagero, obsessão - porque não vou aguentar. Não consigo segurar todos os pedaços do corpo numa única massa se esse embrulho que estou sentindo, que me impede inclusive de tomar o café!, se prolongar por tanto mais.
Entende? Aguento pouco, os pedaços se descolam rapidamente e quando tenho só cabeça, troncos e braços, quando o resto das pernas, dos dedos e das coxas estão embaraçados e trancados na mão esquerda para que não escapem, as cortinas se fecham. Consigo pouco a pouco ir remendando todas as partes. Dá certo sim, e concordo que não deixa de ser um show saber se refazer. Mas as mãos são perigosas. Se me tiras as mãos, não tenho onde guardar o meu resto e me perco. Tenho medo de me perder por querer assistir demais. Não sei se você me entende, não sei se estou sendo obscura em minhas palavras.
Estou baleada nesse momento. É diferente ser baleada dessa forma; parece que dentro da bala havia uma granada que se explodiria no momento em que entrasse pele adentro. E foi assim. Estou metáforica hoje, não ligue. Mas a granada ocupou tudo violentamente, tremendo o corpo, escondendo o brilho dos olhos inchados e tapando os ouvidos. Só ouço zumbidos por aqui e o ventilador me irrita profundamente. A arma que dispara a bala é feita da possibilidade de que não acredites mais. Não consigo compreender, combinamos sobre clareza, verdade e leveza e nossos olhos respondiam por si mesmos. Era claro e verdadeiro e leve que soubéssemos do fato de que com o destino não se brinca. Por vezes você pegou minha mão no meio das grandes avenidas como se quisesse dizer: não me deixa. E não deixei.
Se faz parte do grande show, que seja em curta temporada. Meu pedido no final é que se liberte do passado, de tudo, de todos!, e consiga fechar os olhos confiante. Por enquanto estou baleada e sei que em breve as vibrações da explosão da granada chegam ao coração. Fé e amor para nós.


18 de fevereiro de 2010

Faço de conta que conto histórias,
que conto os dias
(embora eu não esteja menos que desnorteada ou mesmo perdida),
que cato e
conto borboletas que voam e voltam por sob as cores diversas das flores de dezembro.

16 de fevereiro de 2010

Para Giul Jr e nossas viagens


Sim, foi o que dissemos na última viagem: somos caixas de pandora e nossos segredos devastariam as civilizações. bombas atômicas? epidemias? meteoros? sempre cabem demônios e os piores pesadelos do mundo no fundo falso da aparente silenciosa carcaça. Vejo isso agora pelo espelho, tentando enxergar guela adentro alguma coisa que esteja prestes a sair, a boca arreganhada como se uma mordaça estivesse prestes a puxa-la por completo - talvez seja por isso a tosse constante e os pigarros sempre pela manhã. quantos gritos escondidos ou colados mesmo a madeira? ao cristal? ao gesso? de que são feitas nossas paredes? quantos gritos abafados por costuras e pontos de lã para que ficasse quente por dentro e a voz virasse água e fosse mandada embora pela pele como suor. Toda aquela pele molhada é como um corpo amordaçado tentando dizer alguma coisa, você não vê? Estamos amordaçados embora nossos lábios ainda se movam. Estamos no silencio ainda que dentro esteja um alvoroço quase carnavalesco. Ah, essas revoluções...lembro que passeávamos pelas ruas recém descobertas e perto daquela praça onde não paramos e daquele bar onde não bebemos, havia uma construção e algo parecido com uma caixa gigante, foi o que falamos, você lembra? Exatamente assim: uma caixa gigante de madeira. Somos tão sonhadores. E você disse que era como aquela caixa e disso nunca esqueço. Não estávamos sozinhos nesse dia, havia mais duas pessoas com os pés calmos duvidosos e quando você disse sou essa caixa e eu olhei e sorri e pensei que sou quase isso mesmo, ninguém nos entendeu, meu amor. Você percebeu isso? Quase ninguém nos entende. Você seguiu dizendo que, quando se abrisse (e não sabia por qual motivo se abriria e nem com o quê seria feita essa abertura), seria como uma explosão. Porque você é fogo, eu pensei, orgulhosa. E eu disse que a minha caixa tinha um buraco já, que eu estava vazando pela parede ou pelos poros aos poucos e que depois fluiria todo o resto e os mistérios se revelariam. Porque sou ar, meu pequeno. E não importando o elemento, somos vivos e temos muito o que mostrar por aí. Segredos quase ininteligíveis, meu amor., e temos que arcar com todas as consequências de se viver a flor da pele e a mercê dos sentidos. Você vê? Você sente isso?