30 de maio de 2010

Miragens

Miragem. Quando anoitece, eu canto.
Tem vezes que falo demais, sabe, Jorge? Tem vezes que falo de menos. Tem vezes que nem mesmo falo, fico cá quietinha com meus turbilhões de grilos inside me. Nem me movo. Miragens, Jorge. Quando anoitece, eu canto. Ela tosse, ele desvia. E desviar era como se concordasse e adivinhasse previamente, visto que os textos se repetiam sem a menor cerimônia. Quando anoitece, eu encanto. Não penso em nada, ou talvez em algum Paraíso perdido, que nunca acho nem mesmo quando imagino. Procuro por estrelas, Jorge, enquanto capto as nuances dos que sorriem com os olhos. Imagine só, sorrir apenas com os olhos, as duas bolotas pulando num centro ondulante que circunda, Jorge. Só as duas bolotas denunciam, Nada mais, Nada menos. Feição alguma se modifica, inclusive os dedos as pontinhas que por vezes fazem roídos ensurdecedores, nem mesmo os dedos se movem, ficam quase que mortificados. No entanto, a pessoa sorri. Entendo o porque sorriem, Jorge, vejo o encanto nos olhos dos encantados, ainda que o mundo e todos sejam um desencanto só, um grande desamparado filho de uma filha da puta que renegou sua prole e a expulsou de casa - o seu único filho na rua! -, todos A angústia em meio a. A tantas outras coisas, Jorge, tantas outras dores que não adianta discutirmos mais. Além de tudo, estamos quase sem voz. Temporariamente impedidos. Impelidos por uma sombra qualquer dentro de nós - ou seria luz? claridade? impulsovital algo-no-fim-do-túnel? Impelidos por isso que não nomeamos para isso que insistem em chamar de vida, essa crueldade insana. Do que falo? Ora, Jorge, falo do humano. Não sou mais a calma bonitona do 15, penso que é uma maravilha chegar a uma certa idade e poder fluturar por entre as personalidades que existem no âmago de nossa sinceridade (coisas que nós sabemos e mantemos a sete chaves, um esconderijo quase aquoso que destruiria o Todo). Estamos perdidos e esse é o destino e a salvação. Já sabemos disso. Sim, a natureza. Sim, a rebeldia do fogo e das águas. Sim, as chuvas enlouquecedoras. Sim, os desmoronamentos, o derretimento de geleiras, o mundo transbordando-se e não cabendo mais. De qualquer forma, aqui dentro Acumulam-se dias, Jorge, dias tensos em pilhas, e lhe pergunto: para quê? Para quê tantos dias empilhados como blocos de contratos em cima da mesa do escritório. conta-se mais de três mil?, porque já perdi as contas (...)

Um comentário:

Allan disse...

Ótimo pra variar.