3 de janeiro de 2010

-Eu vou sonhar o sal suave do suor das tuas curvas, ela disse, pouco antes de ir. numa cor quase vermelho escuro enquanto os cabelos molhados ainda pingavam gotinhas pelas costas que escorriam até os ombros ou logo abaixo, pequenas gotas furtivas por dentro da blusa de alcinha, a outra percebia dizendo: Vou ficar triste, entende? Mas vou gostar de estar triste porque vou saber que em algum lugar existe alguém triste por mim. Não só tristeza, mas quando dói saber que costuraram (alguém, Deus, o Senhor Destino) uma outra alma na sua própria alma e depois arrancar as linhas e os pontos e. Por isso que dói. É aquela coisa de sorrir enquanto dentro as lágrimas escorrem enlouquecidas, eu acho.
- Eu vou reinventar todos os teus traços antes de dormir. Quando eu acordar e a cama estiver vazia (só o meu peso bem pesado quase morto cansado esmagado), vou levantar devagar com os movimentos quase esquecidos e mecânicos. Não mais os movimentos certeiros e intencionais: levantar e pegar o café, depois te oferecer e te servir, aí sentar nas cadeiras brancas enquanto o dia lá fora começa a todo o vapor e falar e falar e falar, falamos tanto sempre, e depois deitar no sofá e pedir pra que nunca mais me deixe, pra que continue tudo sempre assim. Tudo e sempre. Te confessar que você é o que eu criava, embora não soubesse, e repetir todas as frases todas as vezes todas as horas. Pra que você não esqueça e não tenha medo. Lembra, meu amor - e te chamo de amor e agora te reconheço como minha da mesma forma que me reconheço como tua-, do que dizia aquele conto: basta não teres medos excessivos. Mas quando eu acordar e não ouvir os seus sussurros cheios de sonhos, não mais vão existir essas coisas sentidas e faladas no calor do momento, no calor do centro do rio, no calor de nossas peles. Eu ficarei calada, então. Não haverá som depois que eu acordar e a cama estiver vazia. O silêncio. Nunca uma cama poderia pesar tanto quanto a minha, silenciosa entre os lençóis e cobertores não arrumados e o travesseiro guardando ainda uns fios de cabelo como um tesouro, e dentro, quando eu afundar a cara marcada na fronha branca, dentro, lá no fundo, um resquício do teu cheiro. E então, com os movimentos mecânicos, vou levantar da cama e olhar a janela. Não vejo ruas, só vejo prédios pela janela do meu quarto, talvez onze e meia, vou deduzir, quase meio dia, já que não tenho estímulos para me levantar da cama tão cedo, e vou fechar as cortinas e fingir que já é noite. Tenho certeza que logo depois vou correr para as prateleiras desesperadamente pra pegar o teu retrato. Sei que farei isso apesar de nunca ter ficado longe por tanto tempo. Ou principalmente por nunca ter ficado longe por tanto tempo. Não quero esquecer sequer uma expressão. Com o seu retrato em mãos, vou sentar de novo na cama por mais um tempo: refazendo gestos, buscando marcas, reconhecendo o brilho dos seus olhos na fotografia e depois. E depois estou pensando que vou decidir não sair nunca mais de casa. Isso. Vou decidir nunca mais sair de casa, só esperando. Você entende que toda espera vale?

Um comentário:

Tainara Santuchi disse...

Meu coração esta batendo mais rápido. Por que?