10 de julho de 2009

A vida desperdiçando-se em fumaça no quarto

(eu tinha desistido de postar só porque ficou grande, mas resolvi colocar assim mesmo)

Para as duas,

que estão distantes,
mas se eu pudesse etc etc

Mais uma na multidão, mas sabia que tinha sido destinada a algo grande e importante. Ainda não sabia o que era, mas desde sempre esperara que algo explodisse. Esperava ainda agora, enquanto, mesmo sem dinheiro, ia para a faculdade federal do rio de janeiro cursar as matérias legais e as matérias chatas da graduação em letras. ainda assim, disposta a aprender, a escrever, a passar as horas ditas desperdiçadas em frente a máquina que colocava forma nas suas ideias, os dedos amarelados, o cigarro na boca, as bitucas no chão, tudo corrido e sem tempo tentando se preparar para quando houvesse aquilo tudo: a explosão.
Estava sempre assim, sem um real na carteira, conseguindo pagar seus vícios sabe-se-lá como; não parava pra pensar nisso. Quando percebia que sempre andava a beira da pobreza total, sabia que tudo não passava de águas ruins, que sempre conseguia se safar, que isso só confirmava o fato de que era uma predestinada. Nada lhe faltava para a hostil sobrevivência, mas o anseio e o desejo pela real significância da vida lhe faziam acreditar e confiar que a fome realmente crescia, que as idéias não cabiam mais naquele ambiente, que tudo era pequeno e envolto por cobertores pesados; queria, mesmo, era acreditar ainda mais que poderia descobrir, tirar o cobertor, deixar o que é pequeno crescer sem controle.
Todos os dias agora começavam depois das três da tarde. Acordava pelas nove da manhã, fazia um café, fumava dois ou três cigarros, ligava a TV e ficava assim olhando as figuras coloridas que se faziam na tela nos canais infantis. Ficava por um tempo, se cansava, deitava na cama e ficava ali, inerte, quietinha. Era inverno, mas o sol invadia ferozmente o quarto, esquentando. Deixava-se esquentar por inteiro, camisolinha de seda verde, olhos fechados maquinando uma saída. Chegaram as férias e junto com elas, o tédio. Porque sempre andara de um lado para o outro, nos últimos anos, aguardando ansiosa o próximo desfeixo, preparando os produtos para serem expostos, esperando que o fim de semana chegasse, que a Giovanna chegasse, que saísse o dinheiro do último trabalho, que a mãe fizesse a comida do jantar. Agora nada disso viria mais: estaria em paz por um mês. Mas como? teria que conseguir se isolar ou estaria morta, pensava. Sempre extremista. Ou consigo agora alguma coisa ou fodeu, tomo mil remédios uma noite e na manhã seguinte não acordo nem com uma voz doce nos ouvidos.
Oh, tempo, como és cruel com seus súditos, os humanos! Como escapas ferino pelos dedos e iludes nossos sentimentos, modificas e destrói. Tu, ó tempo, tens o poder maior de controlar essas vidas medíocres.
Querendo dormir, mas mil pensamentos a perturbavam. Não era uma perturbação ruim, apenas a perturbava porque andava sem tempo antes. Os dois amigos com quem dividia o apartamento não paravam de falar sobre as notícias do dia, tributo a michael jackson, novo programa na televisão, a estréia de uma peça, o pneu do ônibus que furou, sei lá mais o que. Ela só pensando, perturbada, em como seria se tivesse dinheiro o suficiente. Se morasse sozinha. Se estivesse sem amores. Como seria se agisse como uma louca apenas por uma boa história para um livro? Saberia que seria diferente se sua vida andasse como há alguns tempinhos atrás: três anos, quatro, algo assim, quando ainda não tinha muitos compromissos e o espaço na agenda tinha de sobra. Agora não: correria, prazos, cursos, aspirações grandes que a moviam sempre correndo tic tac tic tac, Era férias, então tudo isso parecia passado, embora fosse ainda a primeira semana sem a faculdade, antes tirando os saltos altos ao chegar em casa, colocando o batom vermelho antes de sair, retocando o esmalte, o velho e bom pó de arroz, blush rosa, ajeitadinha no cabelo e ia toda serelepe esperando o futuro. Se fosse como antes, poderia ao menos encontrá-las. As três eram de ambientes diferentes, sabiam. Distantes geograficamente, mas as poucas coisas ditas eram motivo de olhos brilhando. Não era amor, não é disso o que falo. Ou era: amor pela vida. Tinham um elo. As três, eu diria, embora não houvesse a fiel convivência. Porque estavam mesmo ligadas por um fio invisível de visceralidade que não seria desfeito assim tão fácil, visto que somente elas podiam enxergá-lo tão firme como este se apresentava.
Agora o vazio ficava já que não tinha mais prazos. Só o vazio e o tédio e aquela vontade faiscando de que devia se arriscar, como sempre dissera aos amigos.
- Mas eu tenho medo. Sabe aquelas situações que parecem intocáveis e bonitas justamente porque elas existem, apenas isso? Como se acontecesse dentro de uma bolha, brilhando em volta, mas são tão frágeis, estouram por qualquer influencia externa na vida real. É por isso, aqui temos os nossos limites que nos separam dos outros, esses limites nossos. E aí eu tenho medo dessas influências, dos vínculos que podem alterar o percurso. Mas enfim, que a bolha se estoure, qual o problema, não é verdade? Eu estou viajando, eu sei, mas faz sentido. Eu quero ver vocês, mas eu não posso. Que impotência. A vida disperdiçando-se em fumaça no quarto.
E os olhos em algum lugar, embaçados e cansados, insistentes em continuar abertos, curiosos cheios de súplica. Quantos minutos mais?, pensava. Se demorasse tanto, poder-se-ia dizer que os olhos se secariam, pálidos e exaustos da luta em simplesmente manter-se. Esperava. Mais dez minutos antes de dormir. Como seria se não tivesse vínculo algum? Com nada, nada, nada, família, amigos, sociedade. Se tivesse apenas o compromisso consigo mesma e o dever de fazer tudo o que surgisse na mente.
Sim, agora eu vejo. Pelo espelho retrovisor de um 173, eu vejo alguém que há tempos eu gostaria de encontrar. Tão séria que eu ficava assim quando distraída. Uma mulher de vinte anos- e era a primeira vez na vida que me via assim: mulher. Madura, parecia, um tanto determinada para os que me olhassem: mochila, bolsa, sacolas de muambas numa sexta-feira às 8h da manhã pegando esse 173 na central até a rodoviária. Viajante arriscada, mulher de pulso. A imagem que se apresenta me agrada. Descanso de olhos fechados o grande fardo dos últimos dias que precederam a esperada viagem, o desgarrar das amarras do dia-a-dia para vinte e quatro horas que existiram e ponto, nesse momento que falo os dias já terminaram e sabe-se lá quando as terei de novo, mas estão guardadas. Guardei-as na gaveta, junto as outras lembranças, e fechei-as com chave para que lá permaneçam. Aos poucos olho no fundo das janelas da alma e enxergo o inxergável. os fracassos, as perdas, as dores. Uma mulher desempregada sem saber o que vai ser em breve - porque já cresceu, já é mulher feita: cabelos, unhas, curvas, o sexo vibrante quando pensava em safadezas. Será que demora mais ainda? Pelo menos serão quatro horas de viagem, eu preciso dormir. Na verdade, eu só preciso de uma chance. O ônibus demora no caminho, maldito motorista que conhece metade das pessoas que ficam nos pontos de ônibus nesse rio de janeiro. E eu ansiosa. Oito e meia quase e abro mais um dos chocolates. Nada parece real, estou cansada porque não durmo há três dias.
Doces são mesmo serotoninérgicos. Nada melhor para a minha ansiedade. Ah, a natureza humana! Não existem inocentes. Somos todos culpados do grande crime de darmos as mãos ao medo e à covardia. Todos animais sem instintos, privados das segundas e terceiras intenções e domados pela tão cruel racionalidade. Eximo-me de pensar agora. Dou-me às idéias dos primitivos. Brindo as minhas vontades! Não sou inocente. Que venha então sobre os ombros o peso de seguir farejando minhas epifanias e catarses de cada dia.
Acredito em tudo e duvido de tudo. Estou no centro da agitação e da neurose; calma, lânguida, andando a passos ora largos, ora miúdos. Absorvendo como real quando acho válido de ser vivido para as minhas pulsações. Vivendo, imune, bem assim lânguida na estrada confiante e desconfiada.
Então as duas foram andar na Av. Paulista, e a outra pensando em casa em ter pelo menos cem reais agora e poder ir pra rodoviária e fodam-se os compromissos todos, ir pra rodoviária, comprar a passagem RJ-SP, como já tinha feito algumas vezes, impulsiva e insone, sempre as decisões tomadas depois de prontas, tudo acontecendo atrasado e adiantado e cronologicamente perturbado, diremos assim, então a outra iria pra SP com os seus únicos cem reais e pegaria um metrô naquele frio, ela nem teria levado tantos casacos assim, uma única mochila, duas calças e duas blusas, a máquina fotográfica, uns papéis, um pen drive com os seus escritos. E agora o frio, e a busca pela rua, que rua que é mesmo? Pega o metrô na cidade fria e de pessoas bonitas, gostava assim quando fazia frio no fim da tarde, quase noite que já era, e chegara então na Av. Paulista também, porra caralho impulsividade! pensava, mas estava com um sorriso no rosto, de orelha a orelha, caminhava cada vez mais rápido porque sabia que em breve chegaria ao tal bar onde encontraria as duas que também andavam pela Av. Paulista. Daí a outra vem caminhando assim rápida, enquanto as outras duas sentadas agora, garrafas de cerveja pela mesa, cinzeiros cheios, as ruas cheias também porque era feriado, as duas de calça jeans, cabelo bonitinho, arrumado, as duas lindas ali, as duas de sorriso aberto olhando a menina que chegava desajeitada de um calor do Rio de Janeiro, que mesmo no inverno parece verão, gente, eu vim, eu vim aqui beber com vocês, eu só precisava de cem reais e eu achei os cem reais e eu to aqui, caralho, eu to aqui. E as três lindas a noite inteira bebadas de serem, tão, tão, tão, e não é que a vida é realmente um absurdo? Eu tinha um aniversário pra ir hoje, uma diria, e a minha vida anda uma merda, e a minha vida anda uma merda, e a minha vida anda uma merda, todas as três diriam. Mas foda-se, agora é o momento. Foda-se se tudo anda uma merda, se falta o dinheiro, se parece que ninguém enxerga o valor natural das coisas e dos rumos, o que importa é o que fazemos aqui nesse frio de são paulo tentando encontrar alguma razão, tentando expressar o que somos, tentando, juntas, achar alguma fonte de sobrevivência entre o caos que se instala em volta de nós, tentando escrever ao menos algumas entre-linhas que nos salvem no final de uma história.
E isso é tudo. Há três dias eu não durmo e há três dias eu não saio de casa só maquinando uma saída.

Um comentário:

Tainara Santuchi disse...

gostei pra caralioooooooooo. ponto.
Ah, se eu tivesse esse dom(..) haha