7 de julho de 2009

Agora faz calor como há dois meses atrás, embora seja definitivamente inverno - sinto isso a noite quando não ligo os ventiladores da casa e tudo fica silencioso e ouço os tic tacs do relógio que me atormentam. (por ser inverno, por ser frio e solitário.)
Mas agora faz calor, estou sentada no banco de uma praça que parece aquela praça onde, pela primeira vez, eu disse que seria melhor nos separarmos. Você deve ter achado uma loucura tudo aquilo porque estávamos ainda nos conhecendo e tínhamos tanto pela frente, já começávamos a sentir doer a falta quando a ausência se prolongava, e eu louca querendo um ponto final. É que eu sabia que seria assim. Me conheço demais, esse é um dos meus dons. Eu sabia que se passariam dois meses e eu estaria perdidamente apaxonada. (eu só queria me proteger) Completamente, sabe como? acreditando em tudo o que fosse fruto de nós.
Eu sabia desde a primeira vez. Eu sei quando alguém é o escolhido pelos meus sentidos. A explicação eu não descobri, mas não procuro também. Não preciso de explicações porque sei ser. Mas os estímulos eu os capto e os decifro: era você. Porque criar laços, para mim, sempre tantas asas, era mesmo uma questão complicada. Sem contar também que acho um desrespeito imenso com as outras almas que se conectaram a mim, que souberam preencher o vazio. Sou fiel a elas por terem me dado estímulo, sangue, vida, dor e completude. Mas lhe digo agora que descobri que o vazio ainda existe - descobri que sempre existirá, sempre haverá fome. Aprendi também que é possível a criação de um outro plano, mais colorido e destacado, onde todas as frestas e cantos se apresentam luminosas e úteis. Existe ainda chocolate quente para o inverno nesse plano.
Era você e eu tinha medo que não fosse eu e então eu resolvi dizer para nos mantermos afastadas. Cortar os laços antes que se formassem os nós. Chorei porque já doía saber que não te cheiraria os cabelos, não te envolveria as costas ou beijaria a boca doce e desenhada. Você chorou. Não perguntei porque, deixei que o sentimento nos envolvesse ao máximo até que você gritaria, se esperneando, diria que me queria contigo ainda, que sem mim tudo estaria perdido, já que eu construí um eu seu durante esse pequeno tempo. Afinal, me reconstrui tantas vezes... Nasci diferente pra você ali, naquela praça que parece essa praça, parece que foi ontem... nasci diferente ali e me renasço todos os dias: me recrio, adaptando as formas e os contornos.
Expulsando as lágrimas e encostando o rosto no teu rosto molhado e aquelas suas lágrimas, de que seriam? imaginei que eram produzidas pela impossibilidade de ação, você se sentia parada, sem ter o que dizer, num espanto subito de tristezas e dúvidas. "Não tinha o que fazer", era a frase que poderia definir você visto pelos olhos de outros. Que culpa você tinha se minha fome nunca era saciada? E eu chorando abandonando as idéias ateístas e ceticistas e pedindo Oh Deus, Oh Deus, onde estás que não respondes? ou mandas essa menina agora gritar-me que me quer entre os braços ou terás sempre mais uma ovelha negra em teu rebanho.
-Vamos tentar mais um pouco? Sei lá, talvez o tempo..., você disse.
Só aceitei porque já era paixão, porque já eram nós
e eu, felizmente, sigo os meus instintos.

3 comentários:

Dolores disse...

literatura (que me dá prazer) é auto identificação e vísceras. tripas pra fora assim, sem medo, amor flutuando pelos cantos das palavras. entrelinhas e esse monte de coisas que você sabe bem e que me faz afirmar que gosto de te ler porque tenho arrepios constantes

Dolores disse...

e afirmar também, junto contigo, que sempre haverá fome.

isabelle disse...

fome e pressa!