9 de dezembro de 2009

Coisas que eu não disse

- São coisas que eu não disse, mas tenho vontade de dizer.
- O quê?
- O que o quê?
- Essas coisas que você não disse, mas tem vontade de dizer. Dizer a mim?
- É, tenho vontade de dizer pra voce.
- Então diz.
- Ah...
Tragou forte o cigarro, previsível. Esvaziou aos poucos os pulmões, previsível também, sempre lenta quando tentava assim colocar as coisas de dentro para fora, tudo um processo, dizia, e agora olhava a fumaça que saía da boca de lábios vermelhos, a fumaça de um cinza escuro quase azulado, leves nuances, diferentes formatos, como formam círculos e laços que se desfazem e se cruzam e ganham vida e decidem por si só os caminhos, pensou reticente.
- Ah, coisas... coisas complicadas, embaçadas, tudo meio lúdico, entende? que respiro contigo, que saio da apnéia, que me diminuo e me sinto esmagada quando não tenho seus braços e traços e cores e aquele cheiro, você sabe como. como se alguma coisa esmagasse minha cabeça e eu ficasse apertada colada junto ao chão e pesando no cérebro as idéias e os pés ou as mãos ou seja lá com o que fosse feita essa minha metamorfose apertando com força ajudando a gravidade, colada ao chão quase chão e terra e lama toda miúda mesmo. eu quase numa viagem ao japão através das terras entrando no planeta tão quente, cada vez mais quente quando se adentra, assim: como se eu me sentisse sufocada e pequena e presa e imóvel quando me afasto de você. Você sabe. Na verdade, são coisas que não disse e que acabei dizendo agora e sempre tive vontade de dizer, embora se eu não dissesse daria no mesmo porque vejo nos seus olhos a mesma coisa que vejo nos meus quando olho no espelho e logo depois vem um brilho ofuscante no cantinho da pupila como se entendesse todas as palavras não ditas e sorrisse leve na contemplação do encontro de almas. Eu não preciso dizer, como você também pode apenas permanecer em silêncio. Entendo, eu entendo todos os seus olhares, todas as suas intenções, os seus toques, os seus disfarces. E o que me faz pensar que já estou acostumada e louca e perdida, mulher, eu estou perdida porque ontem mesmo ouvi uns miados quando cheguei em casa sozinha depois de tanto calor, de tanto caos, depois da cidade queimando sobre meus pés e sob minha cabeça. Logo depois olhei para o chão esperando que alguma coisa se enroscasse em minhas pernas com o pêlo macio e negro, mas procurei por dois segundos ou três e depois lembrei que eu estava na minha casa. Eu disse: Você não está na casa dela agora, Jane, você está na sua casa e a sua casa é vazia e não existem miados nem pêlos negros enroscando em suas pernas. Tomei alguns calmantes porque eu me sentia agitada, não encontro mais refúgio sem você, eu quero a minha paz clandestina, entende? E resolvi te contar isso, das coisas que eu não disse e que são importantes apenas por ratificarem tudo o que você vê nos meus olhos, nas minhas intenções, nos meus toques, nos meus disfarces. Quis dizer também que passei a ouvir esses miados quando me falta o seu cheiro na minha cama que nunca dorme. E disse.