14 de agosto de 2009

Que esse vazio, às vezes, te digo: que esse vazio, às vezes, me perfura. E ninguém nunca desconfiaria, pois são todos uns cegos que não conseguem - e pior! pior, meu Deus, calamidade!, eles não querem-, todos uns cegos que não conseguem porque não querem enxergar um palmo além do proprio nariz, talvez curvem, os cegos, as cabeças cheias de cabelos ou mesmo as sem cabelo algum, curvem-nas e enxerguem o umbigo, talvez olhem para frente apenas para não pisarem em alguma merda na calçada, então não me preocupo e digo a ti como confissão pois sei que me entendes. Ninguém desconfiaria, nunca, de nada, sequer porque não querem enxergar - te digo que fico com marcas e espaços na pele: perfurada. Não enxergam nada, muito menos sabem ou desconfiam desse vazio que te digo agora, que, às vezes, às vezes é capaz de perfurar-me assim numa cadência lenta e permanente.

Um comentário:

Ana Jácomo disse...

Aline,

Pode parecer que não, mas fiquei bem contente com o comentário que deixou lá no blog, faz tempo. Contente também pela maneira como chegou até lá, achei bonita. Esses improvisos me fazem lembrar que a gente não sabe de nada, esqueçamos os roteiros. Que a vida, quando quer, aproxima as pessoas, encontra caminhos, cria pontes.
Vim aqui algumas vezes e li alguns textos seus, mas sempre deixei pra comentar na vez seguinte e o tempo passou. Desculpa. Esses últimos meses foram muito esquisitos pra mim, você não tem noção...rs
Você escreve com uma intensidade que me encanta. Com uma verdade linda. Com sentimento puro. À flor da pele da alma toda. Gosto muito do seu jeito de dizer.
Reconheço esse vazio de que fala nesse texto. Desconcertante. E eu concordo: a evidência mais embaraçosa não é o fato das pessoas não enxergarem, mas o fato de demonstrar que nem querem, seja lá por quais motivos. É estranho demais quando a gente enxerga, não é?
Se bem que eu desconfio que, na maioria das circunstâncias, as pessoas não enxergam não é exatamente porque não querem: não conseguem. Você assistiu "Ensaio sobre a cegueira", baseado no livro homônimo de Saramago? Como diz o dito popular, "em terra de cego, quem enxerga é rei", mas é um rei mais solitário do que a maioria dos reis, eu acho, e isso dói. Presente inestimável é encontrar quem enxergue junto. :)

Beijo pra você e pra sua mãe.
(Hoje vesti o suéter de corações pra ver se atrai...rsrsrs)