4 de novembro de 2009

Estou aqui andando e decoro tudo o que penso para que seja possível depois a documentação, para que você as conheça, essas idéias. A rua é estreita no início, mas como continuo andando, vejo que se alarga pelo final e os terrenos que eram vazios se preenchem com casas imensas que foram sede disso e daquilo lá por mil e oitocentos. Ninguém me disse isso, percebo porque mesmo sem interesse a percepção é presente. São construções fantásticas, você tinha que ver!, e a rua não possui postes desses convencionais, mas uns postes quase como lustres tingindo de tinta amarela a parede dos edifícios e dessas antigas casas. Até meu rosto parece meio sombrio agora que cheguei ao outro lado da calçada.
Sempre passo por aqui nesse horário, quando venho. Cinco e pouquinha, quase seis da tarde. O céu está escurecendo, mas como as casas são grandes e a rua é larguíssima aqui no fim, é possível apenas ver os últimos feixes que o sol lança lá pelo horizonte, no fundo.
Paro numa dessas casas, a que eu acho a mais bonita. Elego-a a mais bonita porque havia umas casas como essa nos meus sonhos de infância e na minha doce juventude. Parece um castelo com esse cimento frio e cinzento que muda de cor quando os lustres se acendem.
São várias pequenas varandinhas com grandes janelas na parte da casa que vejo.E te imagino ali, com um vestido de noiva vermelho, abrindo a grande janela da pequenina varanda. Seus olhos fitam algo que não entendo, talvez uma figura colada à retina, que faz com que qualquer outro sinal seja insignificante aos seus sentidos porque seus olhos não se mexem. Talvez você sinta a rua pelos ouvidos ou pela pele. Talvez outras sensações sejam as mais importantes, não consigo definir isso direito. As mãos seguram o parapeito e as suas cores colorem de fogo o sépia da paisagem.
Fico parada observando, tentando de todas as maneiras captar os detalhes do seu rosto, da roupa, dos cabelos balançando suavemente, porque a tardinha faz um vento bom, mas logo você some.
Aperto bem os olhos para limpar a visão e trazer-te de volta. Pisco desesperadamente e nada. O que você fazia ali, criada naquelas janelas lindíssimas, eu simplesmente não sei. Não quero saber. Não é birra, só não quero criar teorias da saudade, não me interessa explicar porque isso ocorre. Não interessa entender-me mais. Somente lhes conto para que saiba que em meu inconsciente há sua fisionomia escondida e que me basta uma casa-castelo qualquer, me basta uma rua bonita, um lustre, um olhar penetrante, me basta qualquer coisa – às vezes efêmera, pequena, quase um nada para outros olhos, mas uma porta de lembranças para os meus devaneios, então você se projeta diante de mim.
Já escureceu. Viro a esquina porque não me interessa a beleza solitária dos castelos. É a princesa, aliás, que dá vida a essas construções frias.

2 comentários:

Fernanda Veiga disse...

que lindo Lihh!

Diego Santos disse...

Estou acompanhando seus texto.

Nice!