1 de junho de 2009

na esquina do inferno.


Fazer bem feito, era o que queria, que as coisas corressem bem. E por "correr bem", através de seu ponto de vista, entenda-se algo como cenas de um filme romântico, um drama bem sucedido, entrelaçadas a cenas tensas de paixão descontrolada: cobranças, ciúmes, brigas consecutivas: instabilidade; que, afinal, é necessário, ainda através das suas experiências ou de um desejo do subconsciente, afinal é necessário para mantê-la sempre alerta, certa de que tudo poderia mudar em um pequeno intervalo de tempo.
Não seria pega de surpresa se os cursos dos rios mudassem num repente sua direção, não mais. Estava prevenida, isso era certo. Sabia que mesmo sem fatos sólidos e palpáveis, tudo era passivel de mudança - sempre havia sido assim até então e agora tudo correria bem porque dessa vez sabia da fugacidade da vida.
As coisas precisam correr bem, é o que ela pensa agora. Está na praça da Sé permeável ao ambiente. A cadeira gruda na calça desbotada, o barulho dos pássaros e dos passantes pouco a pouco invade o ouvido preparado para tais sons. Ela agora é uma mulher prevenida.
Faz frio e a fumaça quente do cigarro preenche calmamente seus pulmões tentando livrá-la de um congelamento artificial. O corpo parado, a mente pensante, as mãos enroladas na manga do casaco de lã, que fora presente de alguém no aniversário passado. Não é o que acontece graças ao movimento contínuo das mãos até a boca, indo e vindo num ciclo de sete cansáveis minutos. A protegendo, talvez.
Um arrepio percorre todo o corpo coberto. Talvez medo, porque viver assusta. Talvez para que haja um tremor inicial e depois a revelação de uma verdade mais profunda -mas o que? Talvez um arrepio bobo qualquer pelo frio, pelo nervosismo, pela ansiedade, porque agora sabia o que viria: o término. O término bem feito. Antes que ele dissesse qualquer coisa, ela diria que entederia, que realmente a relação não andava lá muito bem, que talvez seria melhor mesmo cada um no seu canto, quem sabe poderiam ser amigos quando essa maré ruim pós relação passasse? Deveria ser assim, afinal sabiam tanto um do outro. Diria tudo isso e iria embora: não feliz, talvez realizada por ter feito o que deveria depois de tanto tempo. Mas não.
Levanta do banco de cimento frio da praça da Sé. Os passos lentos e desconcertados pelos paralelepípedos tortos. Ela torta também, meio aflita agora. Chega em casa e percebe que há uma mensagem na secretária eletrônica. A casa é quente e agora a temperatura dá medo. Próximo ao inferno, pensa, talvez quase lá, na esquina do inferno. Tinha certeza que era ele porque... não tinha motivos para a certeza, simplesmente Sabia. Nos segundos que se sucederam antes que apertasse o botão pra ouvir a mensagem, quase morreu. Queria ter feito isso antes. Não é possível que ele tenha sido covarde a ponto de terminar assim: deixando uma mensagem qualquer.
Feito. Mas ela estava preparada. Apagou o recado frio daquele que chamava de namorado por um longo tempo. A gente nunca conhece as pessoas mesmo, pensava, um rosto meio amuado, choroso, disforme. Mas é um outro tempo, ela agora não precisa de escândalos, de respostas, de nada. Olha-se no espelho.
Que se danem os dois, foda-se, grita, que se comam! No pior sentido, eu digo, o sentido antropofágico mesmo. Pára de falar por dois minutos, olhando os olhos raivosos no espelho. Se piquem em pedaços, vocês dois. Torrem suas carnes brancas até que fiquem avermelhadas e torradas, então comecem o jantar pelas extremidades: as mãos, os dedos, os pés, a cabeça e seus miolos. A sobremesa fica por último, claro, talvez as partes genitais. Deixem a boca para mais tarde também para que possam comer todos os pedacinhos ainda vivos de corpos mortos. Em gritos, em prantos: Descontrolada. Comam-se, animais, e não me peçam opinião, não venham contar-me essas histórias - havia na mensagem, ainda com aquela voz doce dele, divagações sobre ele ter feito a melhor escolha, ter voltado para aquela outrazinha - poupem-me de imaginar o jeito que vocês suam juntos. Meu único desejo é esse: que se comam vocês.
Depois, tendo parado com as confissões e com os gritos e com a choradeira, tirou as roupas e a capa de ódio. Despiu-se dos acontecimentos e relaxou. Ela agora era uma mulher preparada, afinal. Fodam-se os dois. Dormiu calmamente sabendo da possibilidade imensa de vida que teria no dia seguinte.

2 comentários:

Jú Kubrusly disse...

Comam-se, comam-se!!
a-d-o-r-e-i! quase que a única diferença foi não ter sido um recado na secretária, mas um depoimento aff
adoro seus textos!
bjos

Giul disse...

Nossa, que violento, que tenso. Lembrou-me o discurso de Joana em Gota D'água.