19 de maio de 2009

Os meus olhos cerrados cravados na rachadura da parede, o pensamento trabalhando como âncora, me levando ao passado das ondas, os baús dos navios afundados que tanto ouro e recordações escondem entre o azul dos meus mares. É isso, penso, é isso. Voltamos ao estágio utópico de início de relação. Me veio a lembrança exata, talvez mais a imagem que os sons, talvez mais a luminosidade que o cheiro, mas vinha quase completa, a lembrança, com um quê de saudades ou de medo ou de sei lá o que, como se fosse um deja vu, a lembrança de quando eu mergulhei de cabeça mesmo sabendo que não era pra ser assim tão logo, que talvez fosse precipitação. Um deja vù. era a cena que eu vivia agora, então os pensamentos lá distantes quando eu me perdia enlouquecidamente em amores por aí, em um amor só, não sei, em um desses momentos em que eu, quase desesperançosa, me entregava aos braços de quem eu tinha elegido. E digo mais, essa cena de agora só é importante porque é escassa, porque só aconteceram coisas assim comigo umas duas vezes em toda a minha longa vida de esperas. Naqueles tempos me apaixonei por Roberto e disse isso uns dois dias depois de tê-lo conhecido. E ele me perguntou se eu acreditava em amor a primeira vista. Amor a primeira vista? -eu disse - eu acredito é em amor. Depois disso ele não falou mais nada, me abraçava como se quisesse dizer oh pobre menina. Só porque eu acredito em amor.
E agora estamos aqui, essa outra pessoa ocupando o lugar que foi do Roberto um dia. Essa pessoa num lugar que eu escolhi, com um lençol que eu escolhi, a pessoa que eu escolhi, vamos dizer assim. Como se eu tivesse escolhas...
Era um sábado em que eu poderia aceitar um pedido de casamento. E uma das piores coisas na vida é pensar em aceitar um pedido de casamento de alguém que não vai pedir a sua mão. Diabos de cupidos. Culpados! Tento me lembrar sobre o que eu falava com o Roberto nessas horas. (pra ver se eu consigo dizer alguma coisa e tirar os olhos da rachadura da parede. Maior que no mês passado, reparo. Antes que ele perceba os devaneios em que me encontro)
Eu só lembro qual era a sensação que eu tinha quando via mais amor em meus olhos, refletidos no dele, do que na própria primeira imagem, que eram os olhos mais lindos do mundo pra mim naqueles dias. Uma espécie de nó lá nas entranhas que se abriria numa ferida corroendo tudo, repuxando os músculos, os órgãos, todas as minúsculas células se abrindo num desabrochar até chegar a pele. Ou um nó na garganta quase sufocante de quando se está desesperadamente ansioso por um grito e o máximo que se consegue fazer é um simples murmurinho, uma baforada de ar quente que tenta de qualquer maneira ter algum som, um formato, uma fumaça leve pintada de cinza. Em vão. Inércia. Querer continuar no silêncio até que se arrumem todos os pensamentos e os sentimentos e as idéias loucas e a vontade de ficar aqui para sempre. Exatamente esse nó na garganta, esse nó nas entranhas. Isso é o que sinto agora: a parte de dentro toda explodindo enquanto a parte de fora mantém um rosto calmo, serenamente confiante e os olhos semi-cerrados.

4 comentários:

Giovanna disse...

Escrevendo melhor, mais madura e foda como a primeira vez que te conheci.

isabelle disse...

acho que esse é o meu preferido até hoje.
mais madura mesmo, muito mais!
orgulho, amiga.

Fernanda Veiga disse...

mais madura MESMO!!!

Tainara Santuchi disse...

Como assim até hoje? Esse texto é antigo Lih? Só pra saber só..
Beijos, bem.